Náufrago
M. Silvia Munhoz B.
Ondas mansas quebravam espumantes na areia branca da pequena praia. Coqueiros encurvados, como se saudassem o mar, faziam parte, juntamente com a mata nativa, daquele cenário de paz e solidão. Enormes pedras decoravam trechos da praia, imponentes e orgulhosas do seu trabalho. Uma ilha. Uma pequena e linda ilha, com todos os encantos e armadilhas, no meio de um vasto oceano a perder de vista.
Nela, um náufrago encontrou refúgio e, em sua luta pela sobrevivência, feriu-se inúmeras vezes na mata ainda virgem. Em outras tantas, refrescou-se em límpidas e barulhentas cachoeiras.
Viu o nascer e o pôr do sol tingirem de dourado as águas ondulantes do inquieto mar; tempestades escurecerem o céu, tombarem velhas árvores e, a maré avançar sobre a ilha com a fúria dos demônios.
Brincou com as gaivotas na areia da praia. Correu pela mata atrás de ágeis lebres silvestres e buscou alimento no alto das árvores tal qual um macaco. Aprendeu a duras penas sobreviver, mas teve, no entanto, momentos de magia e tranqüilidade também.
Despojado de tudo, entreteve-se em desvendar os mistérios da pequena ilha que o acolhera, sem se dar conta dos dias e das noites que se passavam. Embora sozinho, sentia-se feliz. Acabou por conhecê-la mais que a própria palma das mãos.
Foi quando, fantasmas, bruxas e duendes invadiram seu pequeno pedaço de paraíso, infernizando-lhe a vida a ponto de despertarem nele o desejo, até então adormecido, de buscar novos e melhores lugares para viver.
Tudo a sua volta perdia o encanto. Aquelas estranhas criaturas de uivos apavorantes haviam se espalhado por todos os cantos e recantos do pacato lugar. Desde então, o náufrago não teve paz. Sentava-se diariamente em frente ao mar, não mais para ver o nascer ou o pôr do sol, mas para sonhar. Não tirava os olhos do horizonte esmaecido, onde, bem longe, via-se com bastante dificuldade uma manchinha escura - uma outra ilha.As bruxas e os duendes não lhe davam sossego e, muitas vezes, em angustiante solidão, sem ter para onde ir – chorou.
Passaram-se muitos sóis e luas até que ele resolvesse construir uma jangada com o que havia por ali. Trabalhou nela durante vários dias e, confiante, imaginou-se aportando tranqüilamente naquela ilha distante.
Tendo terminado, contemplou-a longamente, pesando os prós e os contras – sentiu medo. Achou melhor escondê-la dos olhos, pensando que assim poderia reencontrar-se em seu cantinho. Mas sempre ao entardecer, fantasmas e bruxas barulhentas, vindas não se sabe de onde, voltavam para atormentá-lo, tornando suas noites longas e insones.
Estava bastante escuro ainda, quando o náufrago levantou-se, desta vez, incomodado com um clarão que vinha inexplicavelmente daquele pontinho no mar. Intrigado dirigiu-se à praia e enquanto caminhava, tampou as orelhas. Não agüentava mais ouvir o som estridente que ecoava. Quase podia sentir as suas costas, o cheiro delas – das bruxas.
Extasiado com o brilho vindo de longe, onde, ultimamente pousavam seus sonhos, correu até a jangada, arrastou-a para a beira da praia e lá ficou, esperando pelo amanhecer do dia.
Assim que as sombras da noite se dissiparam, colocou água e alguns alimentos sobre a pequena embarcação, deu uma última olhada para trás e partiu.
Subiu e desceu ondas, milhares e milhares de vezes. Sentiu sede e fome. Saciou-se como pôde. Nunca imaginou que o sonho pudesse estar tão longe. Bastante cansado, notou que sua antiga morada também se transformara num pequeno ponto escuro – estava a meio caminho.
Mas, a partir daí, quase não conseguia remar. As forças se esvaiam e, nesse fraquejar, nem a antiga ilha e nem a nova tinham mais tanta importância assim. Deixou o remo por instantes e recostou-se no pequeno e valioso amontoado de pertences, acabando, finalmente, por dormir, levado pelo cansaço e pela angústia de se achar a meio caminho do nada.
Quando acordou, o horizonte estava limpo, não sabia onde estava. Não havia nada, absolutamente nada ao redor, a não ser o mar. Quase não acreditou no que via, ou melhor, que não via. Levando as mãos até o rosto, esfregou os olhos numa vã tentativa de enxergar o impossível. Estava perdido.
Por segundos, atabalhoado circulou pela pequena jangada, fazendo-a bordejar freneticamente. E, então, como um zumbi, parou à ponta da frágil embarcação, e num decisivo passo à frente, deixou-se afundar sem fazer um movimento sequer. Bolhas de ar subiram lentamente até a superfície enquanto seu corpo afundava imóvel.
Longe, bem longe dali - podia-se ouvir o barulho – fantasmas, bruxas e duendes dançavam em festa.
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