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Silvia Munhoz Às voltas
com problemas nunca solucionados, Lia resolveu sentar-se em frente ao
computador, antes usado somente em trabalhos e pesquisas. Sem rumo ou
objetivos maiores, pôs-se a navegar pelas salas de bate-papo. Passou por várias
delas, entrando e saindo logo em seguida. Não achava ninguém
interessante para conversar, talvez por causa do seu estado de espírito,
que, diga-se de passagem, estava uma bomba. Ou mesmo, porque não tinha
o costume de ficar vagando pela “Internet”; mas precisava
distrair-se, alegrar-se um pouco. Em vias de
desistir, espiou uma última sala. Entre muitos apelidos curiosos,
“Homem Feliz” foi o único que conseguiu despertar-lhe interesse.
Esse “nick” chamou sua atenção, provavelmente porque, em tese,
contrariava os sentimentos de angústia e tristeza que a dominavam com
freqüência. Decidiu descobrir o porquê do usuário tê-lo escolhido. “Seria
alguém realmente feliz? Teria motivos para sentir-se assim?
Qual seria a receita?”. Foi com esse pensamento um tanto incrédulo
que ela enviou uma mensagem. Nos
primeiros momentos, como em qualquer papo entre internautas, a conversa
aconteceu chocha e sem graça. Pouco tempo depois, teclavam desenvoltos
e alegres. Perceberam que havia entre eles uma certa identificação nos
pensamentos e nas afinidades. Lia
admirava-se das mensagens que retornavam cheias de vivacidade e lição
de vida, fazendo crer que se tratava de um homem em paz consigo mesmo e
com o mundo. Porém, alguma coisa lhe dizia que ele não era feliz,
embora muito seguro de si e de suas idéias. A maneira
como Edy encarava as coisas deixou-a completamente intrigada. Sem contar
que aquela simples companhia virtual lhe fizera um bem enorme. Ele havia
conseguido colocar-lhe na alma uma pitadinha de felicidade. Nessa noite
Lia desligou o computador com relutância. O dia que se
seguiu àquele encontro parecia interminável. A inexperiente internauta
não parava de pensar na conversa que tivera e, na possibilidade de
reencontrar o amigo “on line” novamente. Sem terem combinado nada
anteriormente, ela sabia que seria quase impossível. “Uma
chance em um milhão!” - como se costumava dizer. Sonhar não
era proibido, era? Pois, então, Lia sonhou. Mal anoiteceu, ela estava plantada na frente do “PC. Desejosa
como uma criança em seu primeiro dia de aula. Quis estar cedo no “site”,
tentando dar um empurrãozinho na sorte. Foram uma
espera e uma busca cansativas. Finalmente, lá estava ele. “Achei!”
– balbuciou ela, sorrindo. O
coração, fora de ritmo, batia acelerado. Lia, como sempre fora uma
pessoa sensata e de pés no chão, se perguntou: Voltou à realidade, se recompôs e fez o contato que tanto
esperava. Usou um “nick” diferente. Não queria ser reconhecida de
imediato. Precisava descobrir se ele fora sincero ao teclar. E, feliz da
vida comprovou. Então, no momento apropriado, identificou-se como sendo
a mesma pessoa da noite anterior. Quase não coube em si de alegria ao
ser recebida calorosamente. “Que
sensação gostosa! Que sentimentos novos e estranhos!” – pensou. Conversaram
de tudo, riram muito e abriram seus corações. Confessaram coisas.
Pareciam velhos amigos, conhecidos há tempos. Havia neles uma certa
ternura implícita, reforçada pela confiança mútua e pelo carinho que
sentiam. Foi
mais uma noite memorável para Lia, atrás da telinha do
“PC”. “Loucura!
Devo estar ficando doida!” - se
condenou, falando baixinho. A partir do
terceiro bate-papo, combinaram teclar através de um programa restrito a um pequeno
grupo de amigos. Este permitia saber quando estavam “on line”. Isso
facilitaria os próximos contatos. Não queriam perder tempo arriscando.
Sentiam-se muito atraídos. Foram
meses de encontros virtuais. A amizade crescia a cada um deles, dando
sinais de que se transformava em algo intenso e envolvente, para
estranheza de ambos. Com o tempo,
Lia acabou constatando que seu amigo não era tão feliz quanto dizia
ser. Tinha lá suas diferenças, entretanto, procurava a todo custo não
demonstrar. Edy passava,
às pessoas com quem teclava, a idéia clara de que a vida era feita de
momentos felizes. Levantava o ânimo de qualquer um. Mas, lá no fundo,
no íntimo da alma, tinha anseios sem respostas. Talvez por
esse motivo, pela alma em conflito, foi se deixando envolver pelas
palavras da amiga. E, a cada novo encontro no “PC”, deleitavam-se
com a sensação de que haviam achado suas almas gêmeas, embora não
quisessem admitir tal absurdo. Eles eram
casados e tinham plena consciência de suas responsabilidades
familiares. Experimentavam uma fase de muitos cuidados, decisões
importantes e filhos na adolescência. Além do que, aquilo era uma
fantasia, irreal, contatos virtuais, emoções virtuais. Isso
existia? Se existia ou não, ainda não se sabia, mas a “Internet”
estava cheia de corações apaixonados vagando por ela, que caíram
nessa estranha malha chamada - “Amor Virtual”. Acreditando
ou não, estranhando ou não, estavam presos como muitos outros. Porém,
entre eles aconteceu o inesperado. Era fato que quando jovens, talvez até
como quase todos os adolescentes, escreviam versos, arriscavam temas.
Todavia, sem darem o valor devido, abandonaram as rimas. Agora, sentiam
ressurgir quase que incontrolável todo aquele ímpeto da adolescência
- emoções fortes e arrebatadoras. Isso fez com que voltassem a
escrever, trocando versos e opiniões a respeito dos trabalhos. Foram
muitos, iam e vinham pela “Internet”, levando seus corações neles. Por
vezes declararam-se, escondidos atrás dos poemas. Parecia loucura, tudo
virtual, bem longe do real. Viviam momentos felizes, mas de um modo
totalmente diferente do normal e não conseguiam entender bem aquilo. Resolveram
então, aceitar sem questionar, apenas sentir, e o fizeram. Viveram
plenamente muitos encontros virtuais e eram felizes assim. Porém, como
nada é perfeito, nada dura para sempre, as famílias perceberam
diferenças de comportamento e começaram pressionar da maneira que
conseguiam. Os encontros
pela “Internet” ficaram difíceis e raros, muitas vezes tensos pelo
efeito do controle que lhes impunham. Tudo se complicava. Pelo sim, pelo
não, impelidos pela moral e os bons costumes nos quais foram
rigidamente criados, decidiram que o melhor e mais indicado seria
terminarem esse relacionamento. Diante da
injustiça de verem anulados seus sentimentos, favorecendo pessoas
poucas vezes sensíveis, optaram por perpetuar o que sentiram um pelo
outro enquanto puderam teclar. E assim, tendo colocado “on line”
todos os poemas que fizeram, num bem montado “site”, despediram-se
definitivamente. Destinados a
tornarem-se mais um dos desencontros da vida, viram com muita tristeza, seus corações partirem soltos pela
“Internet”, num mundo totalmente novo e virtual, enquanto
seus corpos permaneciam presos aos velhos padrões morais do
mundo real. *
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